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Maconha e café para filosofar


Se o pensador Victor Hugo vivesse nos tempos atuais estaria satisfeito com as leis proibicionistas? Membro do Clube do Haxixe, dificilmente o poeta se sentiria à vontade com a falta de liberdade presente no início do século XXI.

O Clube do Haxixe foi uma entidade parisiense composta por personalidades virtuosas como Charles Baudelaire, Honoré de Balzac e Eugène Delacroix. Antes do século XIX, a cannabis circulava apenas entre grupos secretos. No meio científico e literário, tornou-se comum a utilização do haxixe para fins experimentais.

O hash na história (ou a história do hash)

Antes desse período, a principal origem do haxixe era o Egito. Os soldados de Napoleão levaram bolinhas de haxixe para a Europa, ignorando uma norma que proibia o consumo destas. Desde aquela época, as leis de proibição não fazem sentido nem no papel.

3140842604_1_2_ymi2GVkmJacques Joseph Moreau foi um médico que se especializou nos efeitos do haxixe e foi o fundador do clube. Ele também escreveu o primeiro livro científico sobre o uso regular da substância, onde catalogou, analisou e gravou as suas observações.

Moreau compreendeu o funcionamento da psique humana, que antes era considerada apenas uma idéia estranha de um conjunto sobrenatural que era controlado por demônios e anjos. Seus estudos nos apontaram os benefícios físicos e mentais que o haxixe proporciona. Moreau esteve no Egito por volta de 1840, acompanhando alguns pacientes do Dr. Esquirol, um dos precursores da psiquiatria e inventor dos termos monomania e alucinação.

De acordo com os pensamentos de Moreau, existem dois modos de vida experenciados pelo homem. O primeiro resulta da nossa comunicação com o universo externo. O segundo é o reflexo do nosso interior. Para Moreau, os sonhos estavam em um estágio intermediário, onde termina o externo e começa o interno.

Ele sabia que com ajuda do haxixe as pessoas poderiam acessar este estado intermediário. Dar haxixe para escritores fazia parte de um dos inúmeros experimentos do Dr. Moreau. Os escritores, por sua vez, estavam interessados em explorar as suas mentes.

Aditivo de café com hash

Os encontros do Clube do Haxixe eram mensais e noturnos, em uma casa repleta de pinturas. Os convidados bebiam um drinque chamado “dawamesk”, que consistia na mistura de café forte com haxixe, noz-moscada, cravo, canela, pistache, açúcar, suco de laranja e manteiga.

Victor Hugo, ativista pelos direitos humanos de grande atuação política em seu país era membro do clube, assim como Baudelaire. Em “Les Paradis Artificiels” (Paraísos Artificiais), Baudelaire falou que quando o o haxixe é utilizado, os sentidos ficam extraordinariamente aguçados, a visão torna-se infinita, e o ouvido pode discernir o menor som perceptível. Citou o acesso à felicidade completa que os orientais chamam de kef. 1843-club-hashishin-parigi-3

Mencionou ainda que todos os problemas filosóficos são solucionados com o derivado da maconha. Cada pergunta difícil, que apresenta um ponto de discórdia para os teólogos e traz desespero para homens pensantes, torna-se clara e transparente. E mesmo tendo chegado a todas essas brilhantes conclusões, em suas páginas seguintes Baudelaire pende para o lado dos conservadores e sucumbe fazendo propaganda contrária à iguaria.

Hash X literatura

Alexandre Dumas, escritor, foi um dos membros desta confraria. Autor de “Simbad, O Marujo”, assim que pôde colocou o haxixe nas mãos de seu personagem principal. Nas páginas de “O Conde de Montecristo”, o personagem Ali serviu para Simbad uma compota esverdeada feita com haxixe de Alexandria, afirmando que aquela era a mesma geléia que a deusa Hebe servia à mesa de Zeus, capaz de fazer desaparecerem as barreiras do possível.

Théophile Gautier, ícone do Romantismo, grande representante do slogan “arte pela arte ” também escreveu episódios sobre a cannabis, repletos de ironia. Gautier trouxe para o clube uma série de líderes intelectuais parisienses: Gérard de Nerval, Honoré de Balzac e Eugène Delacroix.

De Nerval, em seu conto clássico “Viagem para o Oriente”, dedicou um capítulo inteiro para o haxixe no conto do califa Hakim, o qual é apresentado a uma caixa que contém o paraíso prometido por um profeta iluminado. Ao experimentar o haxixe contido na caixa, o califa Hakim disse que pôde sentir a presença de Deus. Balzac teve experiência semelhante, pois contou aos colegas que ouviu vozes celestes e teve visões de pinturas divinas.

O fim e o legado

O Clube do Haxixe encerrou suas atividades no ano de 1849. O prédio foi comprado pela prefeitura de Paris em 1928; porém a influência de pensamentos que seus membros causaram a toda uma geração ainda permanece. Em 1849, as pessoas já sabiam que o uso recreativo da cannabis é natural, sempre foi – e sempre será. Esperamos que o mais breve possível essas idéias tão antigas passem a ser novamente respeitadas.

*Por Rodrigo Filho∴, escritor e ativista