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Carta à Secretaria de Direitos Humanos pede a libertação de Ras Geraldo


No Brasil é assim: enquanto o dono de um certo helicóptero encontrado com meia tonelada de cocaína não só está livre – como ocupa um importante cargo no atual governo golpista – um líder religioso está prestes a completar quatro anos de prisão por fazer uso religioso de maconha.

Detido desde agosto de 2012, Geraldo Antônio Batista – o Ras Geraldinho – é o fundador da Primeira Igreja Niubingui Etíope  Coptic de Sião do Brasil,  com sede em Americana (SP). Condenado a 14 anos de prisão por cultivo e uso religioso de cannabis, ele é hoje um dos maiores símbolos da crueldade, hipocrisia e desproporcionalidade da (in)Justiça brasileira.

Às vésperas de mais um aniversário da prisão do líder religioso, no próximo mês de agosto, o ativista, escritor e colaborador do Maryjuana, Rodrigo Filho, redigiu uma lúcida e emocionante carta que será enviada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Leia a seguir e manifeste-se você também a favor de todos os jardineiros presos injustamente no Brasil!

“Em um mundo ideal as pessoas têm o direito de expressar as suas crenças.  Em uma sociedade equilibrada, os padrões de justiça são diretamente influenciados por referenciais de moralidade e de espiritualidade. 

Legisladores com crenças radicais vêm impondo suas doutrinas à população através da lei. Isso fere os direitos fundamentais, especialmente a liberdade religiosa. O poder legislativo é o responsável por editar as leis, moldando dessa maneira os comportamentos humanos. As leis não devem ser carregadas com crenças dogmáticas, que ignoram outros conhecimentos de mundo.

O Artigo 19 da nossa Constituição prevê que é vedado ao poder público estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento.

Perante a nossa Carta Magna, Geraldo Antonio Baptista, conhecido como Ras Geraldinho poderia exercer o direito de vivenciar a experiência Rastafári. Fundou a Igreja Rastafári  – Primeira Niubingui Etíope Copta de Sião do Brasil. Enquanto desfrutava de sua liberdade religiosa, foi preso em agosto de 2012 por causa de 37 pés de maconha utilizados nos rituais de sua igreja.

Sua pena é muito dura e desproporcional, maior do que casos de crimes piores.

A prisão de Ras Geraldo fere a liberdade de consciência e a liberdade religiosa previstas na Constituição. Qual é o interesse da bancada evangélica na prisão de Ras Geraldinho? A bancada evangélica sabe que irá a falência se as pessoas começarem a acordar e abandonar as religiões que pregam o ódio e o confronto entre a humanidade para abraçar uma religião que promove a paz.

Nossas leis estão sendo decididas por uma bancada evangélica e isso é muito grave. Desde o descobrimento do Brasil foram criadas bancadas políticas ligadas à Igreja. O clero sempre ditou as regras. Preconceito e intolerância religiosa estão impregnados no judiciário.  

De acordo com a OMS, o álcool mata cerca de 3,3 milhões de pessoas no mundo a cada ano. Mesmo assim, os padres utilizam o álcool em suas cerimonias religiosas para fazer a comunhão com Deus perante todos os fiéis. A igreja promove festas onde os adeptos enchem a cara o dia todo, jogando bingo que também é uma atividade ilícita.

Qual é o problema de um sacerdote rastafári utilizar uma planta natural que nunca levou ninguém a óbito para fazer a mesma comunhão? Não existe qualquer registro na história de toda a humanidade de que a utilização de maconha tenha causado a morte de uma pessoa sequer.

A bancada que defende a demonização dos que pensam diferente quer que Ras Geraldinho continue preso. Esse grupo se diz defensor da família, mas não passa de uma quadrilha de reacionários hipócritas travestidos de políticos. Estão fazendo o que podem para travar a legalização e a descriminalização do usuário e do cultivador de maconha no Brasil. Essa mudança nas leis está demorando, mas não falhará.

O conservadorismo religioso fundamentalista tem conseguido impedir benefícios às minorias que não professam a sua fé em nosso cenário político. Se o estado é laico não deveríamos ter grupos no poder legislativo formados por eclesiásticos, visto que o fundamentalismo religioso está prejudicando a legislatura no país.

A ciência nos permitiu descobertas, que desorientaram esses teóricos da opressão. Não conseguem aceitar o fato de que esta planta cura doenças. Nenhuma substância jamais vai causar mais danos a sociedade do que a imposição de ideias retrogradas. O que realmente deteriora os laços sociais é o preconceito. O autoritarismo e o sentimento anticiência utilizado por essa bancada é prejudicial a muitos.

Peço à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, reforçando outros textos de mesmo teor recentemente enviados para esta casa, que interceda por Ras Geraldinho e por todos os que estão presos por propagarem tratamentos alternativos que utilizam cannabis.”

*Por Rodrigo Filho∴, escritor e ativista