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Cannabis: o “Uber” da indústria farmacêutica


Assim como no caso do mercado de álcool descrito no artigo anterior, desta vez analisaremos o mercado de um dos principais medicamentos psiquiátricos, prescrito para muitas crianças e adolescentes em fase escolar, e de analgésicos não-opioides e opioides para os casos de dor crônica.

Chegou a hora de conhecer e refletir sobre as principais variáveis de risco desses medicamentos e as da Cannabis medicinal; notadamente, prevalência das enfermidades relativas na população, percentual de casos de abuso dos que usam o medicamento à luz dos efeitos colaterais e dos possíveis eventos extremos em caso de uso indiscriminado.

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

Vejamos o caso da Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) no Ensino Fundamental. Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), a OMS relata que esse transtorno neurobiológico de causas genéticas prevalece em 3% a 5% das crianças, e até 8% em adolescentes, em várias regiões diferentes do mundo.

Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na fase adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos. Porém, mesmo com alguns sintomas amenizados, o adulto com TDAH possui maior chance de enfrentar eventos adversos, tais como problemas na saúde física, mental (ansiedade, abuso de substâncias, depressão e suicídio) e prejuízo psicossocial (problemas acadêmicos, de relacionamento e desemprego).

Toda essa cascata de eventos resulta em gastos exorbitantes. Estima-se que os custos atribuídos ao TDAH podem chegar a 266 bilhões de dólares nos EUA.

Os principais sintomas do TDAH são desatenção, distração e hiperatividade-impulsividade. Entre as possíveis causas citadas pela ABDA estão a hereditariedade e o uso de nicotina e álcool durante a gravidez. Fatores ambientais também são mencionados, porém, as indicações atuais são de que o TDAH, de fato, tem origem genética e que, assim como no caso da esquizofrenia, a prevalência não se altera em diferentes locais do mundo.

Com relação às bases neurobiológicas do TDAH, estudos indicam principalmente a relação com o atraso na maturação de determinadas estruturas cerebrais e com o déficit na neurotransmissão da dopamina.

Ritalina

A Ritalina é o principal medicamento vendido no Brasil para o tratamento do TDAH. Ele é a base de metilfenidato e possui ação de curto prazo.

O metilfenidato inibe a recaptação de dopamina e norepinefrina da fenda sináptica, e aumenta a atividade destes neurotransmissores. Dessa maneira, o medicamento ajuda a corrigir o possível funcionamento deficitário do sistema dopaminérgico e auxilia no controle dos sintomas.

Apesar da discussão a respeito do uso do medicamento que causaria dependência e riscos neurológicos, a Associação Brasileira do Déficit de Atenção afirma que nem controvérsia existe. Além disso, acusa de preconceito os que polemizam o assunto.

Os principais efeitos colaterais do metilfenidato incluem insônia, enjoo, dor de cabeça, irritabilidade, tontura, aumento da pressão arterial, apatia e letargia (efeito zumbi), diminuição do apetite e perda de peso, e dependência por ser psicoestimulante.

Entre os principais efeitos adversos relacionados ao sistema nervoso central estão, por exemplo, psicose, alucinações, convulsões, sonolência, ansiedade e, até mesmo, desejo de suicídio.

Segundo dados do DEA (Drug Enforcement Administration, dos EUA), em 2010, houveram mais de 3.600 atendimentos dos prontos-socorros relacionados ao uso indiscriminado do metilfenidato, e 186 mortes ligadas ao uso do medicamento. Outra pesquisa, da FDA (Food and Drugs Administration), órgão de vigilância sanitária dos EUA, e do NMH (National Institute of Mental Health), feita em 2009, revela que o risco de morte súbita para adolescentes que tomaram Ritalina é de 10 a 14 vezes maior do que para aqueles que nunca foram medicados.

Uso da Ritalina no Brasil

No Brasil, o crescimento das vendas de medicamentos para TDAH foi explosivo. De 2000 até 2008, a comercialização anual de caixas de Ritalina passou de 71 mil para 1,147 milhões, sem contabilizar as demandas revendidas clandestinamente no País.

Segundo o levantamento feito pelo Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), houve um crescimento de quase 50% na venda de remédios à base de cloridrato de metilfenidato no Brasil entre 2008 e 2012.

Entre setembro de 2007 e outubro de 2008 foram vendidas 1.238.064 caixas, enquanto que entre setembro de 2011 e outubro de 2012 as vendas cresceram para 1.853.930 caixas.

Dados mais recentes obtidos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) confirmam a tendência de alta. Segundo a ANVISA, o número de caixas de metilfenidato vendidas no Brasil passou de 2,1 milhões em 2010 para 2,6 milhões em 2013.

Nesse intervalo, os valores gastos com a medicação passaram de R$ 40 milhões para mais R$ 100 milhões. O número coloca o Brasil como o segundo maior consumidor de metilfenidato do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Segundo dados do IBGE, até 2010 existiam 924.732 pessoas com TDAH, mas apenas 184.481 estavam em tratamento.

Para alguns médicos, considera-se que somente 1/5 dos pacientes é medicado, ou seja, em tese, o mercado potencial de Ritalina no Brasil é de mais de R$500 milhões, com mais de 10 milhões de caixa consumidas por ano.

Hoje, uma caixa de Ritalina La (Novartis), a nova geração deste medicamento, com 30 Comprimidos de 20 mg custa por volta de R$ 200. A caixa de Ritalina (Novartis) com 60 Comprimidos de 10 mg custa ao redor de R$ 70. A da Ultrafarma, com 30 comprimidos, sai por R$ 35.

Dor crônica e analgésicos não-opioides e opioides

No mundo, o mercado de analgésicos não-opioides e opioides e os casos de óbitos relacionados a eles não param de crescer. Um levantamento realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo americano, divulgado recentemente, revela que o número de mortes por overdose de analgésicos triplicou de 1990 a 2008. No último ano coberto pelo estudo, foram registrados 14,8 mil óbitos.

A informação agrava a preocupação das autoridades mundiais de saúde em relação ao crescimento do consumo dessa classe de medicamentos, indicada para o alívio da dor. De acordo com a consultoria internacional IMS Health, de 2006 a 2010 o mercado global desses remédios teve crescimento de 27%, atingindo USD 26 bilhões no mundo.

No Brasil, o segmento movimentou US$ 902 milhões em 2010, magnitude que torna o País líder de consumo entre as nações emergentes, e sexto maior mercado do mundo, à frente de países como Japão e Espanha.

As principais classes de analgésicos são os opioides, os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) e o paracetamol. Estes dois últimos são classificados como analgésicos não-opioides. Os AINEs podem causar úlceras pépticas, insuficiência renal, reações alérgicas e hemorragias, pois alteram a função das plaquetas.Já o uso do paracetamol em altas doses pode levar a lesões hepáticas e renais.

Os eventos mais graves geralmente estão relacionados ao uso de analgésicos opioides. O uso prolongado destes medicamentos resulta no desenvolvimento de tolerância, caracterizada pela perda do efeito de alívio da dor. Dessa maneira, a necessidade de se utilizar doses cada vez maiores do analgésico opioide expõe o paciente a graves riscos, como o desenvolvimento de dependência, dificuldade respiratória e morte.

Outro problema além dos efeitos adversos são os pacientes que não respondem aos analgésicos, isto é, nestes indivíduos a dor não cessa mesmo com a utilização dos medicamentos. Todo este quadro indica a necessidade emergente, e urgente, de analgésicos efetivos e mais seguros.

Mesmo considerando os efeitos colaterais e riscos letais assinalados, os médicos no Brasil aceitam os dados da publicação científica Journal of Pain Research que afirma que o consumo ideal seria de 192,9 mg de opioides (como morfina) ao ano por pessoa, ou seja, quase 25 vezes mais, segundo dados de referência divulgados de 7,8 mg por pessoa ao ano hoje no país.Isso explica porque o consumo de opioides e seus derivados compõe um dos fatores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de uma nação.

Cannabis medicinal: uma alternativa segura, eficaz e mais barata

A análise de riscos letais para o mercado legal de opioides que são usados para tratar casos de dor crônica pode ser comparada com a Cannabis Medicinal nos estados americanos em que foi legalizada.

Os dados do estudo americano, Medical Cannabis Laws and Opioid Analgesic Overdose Mortality in the United States, 1999-2010 (Bachhuber et al., 2014), demonstram que os casos de mortes por overdose do uso de analgésicos opioides prescritos legalmente reduziram em média anual ao redor de 25%, nos Estados que legalizaram a Cannabis.

Mais importante, o número de mortes por overdose apresenta redução contínua ao longo do tempo após a legalização da Cannabis.

Outro estudo mais recente, Medical Marijuana Laws Reduce Prescription Medication Use In Medicare Part D (Bradford e Bradford, 2016), mostra que os dados de 2010 a 2013 sobre a prescrição de opioides para dor e o custo para o sistema de saúde (Medicare Part D) indicam a redução do número de prescrições e uma economia média de USD 165 milhões em 2013 nos Estados americanos que legalizaram a Cannabis Medicinal.

Também, os dados de prescrição de remédios que a Cannabis pode substituir e custos apresentaram resultados decrescentes ao longo do tempo, mostrando tendência de continuarem a se reduzir.

Sistema endocanabinoide

Ao longo de milhares de anos, assim como contribuiu para criar as raças de cães domésticos de hoje, o ser humano interagiu com a natureza para criar uma planta com o perfil químico adequado para a conexão com o nosso sistema endocanabinoide que, por sua vez, só foi descoberto na primeira metade de 1990 pela equipe do Professor Raphael Mechoulam, em Israel.

Negamos não só o conhecimento recente da medicina moderna sobre os receptores, hormônios e enzimas associados ao sistema endocanabinoide e as várias funções fisiológicas associadas, como negamos também o trabalho de inúmeras gerações ancestrais nesse trabalho de entender a natureza, o corpo humano e como usar o meio ambiente para cuidar de nossas enfermidades físicas e mentais.

A Cannabis é uma incrível moduladora de diversas funções do sistema nervoso central, e este potencial multimodal da Cannabis faz dela um alvo para o estudo e desenvolvimento de medicamentos para diferentes patologias centrais.

A Cannabis induz a liberação de dopamina que interage com nossas sinapses nos receptores dopaminérgicos. Mais ainda, estudos indicam que existe uma relação bidirecional entre nossos sistemas endocanabinoide e dopaminérgico.

Pesquisadores observaram que endocanabinoides, assim como os fitocanabinoides da Cannabis, induzem a liberação de dopamina, e que a dopamina também induz a liberação de endocanabinoides. A avaliação desta relação bidirecional, e tendo como alvo o sistema endocanabinoide, pode gerar novas possibilidades para o tratamento de doenças causadas por disfunções no sistema dopaminérgico, tais como o TDAH.

Em várias áreas do nosso cérebro existem os chamados receptores para a maconha, localizados na superfície dos neurônios sobre os quais a droga irá atuar.

Quando se processa o estímulo nervoso, as moléculas dos neurotransmissores são liberadas e vão atuar no neurônio receptor. Assim como a dopamina, o neurotransmissor anandamida, o principal endocanabinoide, atua no mesmo processo de funcionamento dos componentes ativos da maconha no cérebro.

O THC faz o papel da anandamida e age diretamente sobre seus receptores em diferentes áreas cerebrais. No sistema límbico, que controla a emoção e funções psíquicas superiores, pode provocar sonhos, alucinações sensação de paz e de angústia.

Entre os efeitos colaterais, a relação de causalidade entre esquizofrenia e o uso de maconha está sendo questionada, já que a enfermidade tem causa genética. Um dado estatístico que corrobora esse novo argumento é o fato de que a prevalência de esquizofrenia não se elevou nos últimos 50 anos, enquanto o consumo de Cannabis cresce consistentemente. Outros efeitos colaterais incluem aqueles associados à memória.

Tem sido pesquisada nos EUA como medicamento seguro para tratar de Síndrome de Estresse Pós-Traumático. Também, diminui a taxa de testosterona circulante nos homens e reduz o número de espermatozoides, embora não os faça desaparecer completamente. Não interfere na libido, e assim pode ser pensado como um anticoncepcional masculino.

A sonolência é outro efeito colateral que tem sido explorado para combater desordens do sono. Esses efeitos desaparecem após o fim do uso do medicamento e, portanto, não deixam sequelas de longo prazo. 

Inúmeros médicos ainda desconhecem o sistema endocanabinoide. Não conhecer o sistema endocanabinoide e ter opinião sobre a maconha, é olhar o céu e achar que o Sol gira em torno da Terra.

Alguns ainda preferem prescrever as masmorras das comunidades terapêuticas e participar do jogo de monopólio da indústria farmacêutica. Este comportamento fica evidente no caso dos medicamentos analgésicos. O efeito supressor da dor promovido pela Cannabis é conhecido há séculos.

Existem evidências do uso desta planta como agente anestésico na China com mais de 2 mil anos. Atualmente, estudos clínicos já demonstraram que a utilização de preparações da Cannabis apresenta efeito analgésico satisfatório em diversos casos de dor crônica e, diferentemente dos opioides, não há registro de nenhum caso de óbito por uso ou abuso do consumo de Cannabis em nenhuma de suas formas possíveis. Porém, tais estudos clínicos enfrentam a limitação jurídica e a indisponibilidade de produtos derivados da Cannabis para a realização dos experimentos.

“Uber” da indústria farmacêutica

“Atacar é a melhor defesa”. Esta parece ser a estratégia de marketing de que se faz valer uma parcela da classe médica e da indústria farmacêutica.

As críticas que fazem à Cannabis Medicinal e superestimar os riscos do consumo inalado da planta, de fato, têm como principal objetivo desviar a atenção às suas próprias práticas, abusos e erros médicos. Desviam o foco sobre os riscos e questionamentos que os medicamentos que prescrevem e oferecem em termos de efeitos colaterais, custos recorrentes com risco de dependência e, sobretudo, eventos letais.

Enquanto isso, pacientes padecem com suas enfermidades e os altos custos de tratamento, sem usufruir do potencial terapêutico da Cannabis.

No Brasil, o Executivo, por meio da ANVISA e do Ministério da Saúde, age de forma preconceituosa, injusta e míope na regulação do mercado de medicamentos psiquiátricos e da Cannabis Medicinal.

Deixa de cumprir seu papel constitucional, expondo a saúde da população à riscos assimétricos e desnecessários, como se estivesse capturada em indústria de concorrência monopolística e respondendo a incentivos perversos providos por indivíduos dominados por preferencias monetárias de curto prazo.

Ademais, também deixa de tributar corretamente as externalidades geradas por uma parcela da sociedade, sejam produtores ou consumidores.

O Judiciário deve exigir proteção à também maioria da população e a Regulação e Tributação do Mercado da Cannabis Medicinal é a melhor maneira do Executivo e Legislativo entregarem essa demanda constitucional e aumentar o bem-estar da sociedade.

Podemos dizer que a Cannabis será o “Uber” da indústria farmacêutica.

*Por Samy Abud Yoshima, administrador de empresas e mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP/RJ) e Lia Assae Esumi, MsC e PhD em Psicobiologia pela UNIFESP e consultora científica da Senses Biotech. Via Plataforma Brasileira de Política de Drogas.