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Será que a comunidade canábica brasileira tem espaço para os gays?


O Brasil é o primeiro país do mundo no ranking de assassinatos de travestis e transsexuais, com mais de mil e novecentas denúncias de crimes motivados por homofobia ao ano.

De todos os crimes cometidos contra a comunidade LGBT no mundo, 50% ocorrem em terras brasileiras.

Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais já são excluídos e discriminados em quase todas as esferas da vida social, o que infelizmente não é novidade para ninguém.

Também não é novidade que os canabistas – sejam consumidores ou cultivadores – sofrem de preconceitos e perseguições semelhantes.

Aí você pensa: grupos excluídos por uma mesma cultura conservadora e retrógrada tendem a se complementar e juntar esforços, correto?

Errado. Mas ao menos deveria ser assim.

O universo canábico é, em sua maioria, dominado por homens heterossexuais. À primeira vista essa constatação pode não significar muita coisa – sobretudo se você é homem e heterossexual – mas basta um momento de reflexão para notar algumas verdades inconvenientes.

Clubes de cultivo, comunidades, fóruns e até mesmo o mercado da maconha no mundo inteiro – e especialmente no Brasil – são espaços majoritariamente ocupados por homens héteros que, em sua condição geralmente acomodada, não percebem a influência de seu comportamento na formação da comunidade que estão construindo.

Além de um machismo escancarado na formação da cena canábica do Brasil, fica óbvia a exclusão dos homossexuais nesse contexto.

Como exemplo, seguem alguns comentários coletados na internet, na ocasião da publicação de um artigo sobre os “highsexuals”, homens que afirmam sentir atração física por seus amigos quando fumam maconha.

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Como é possível notar, a diversidade nem sempre é bem-vinda no universo canábico brasileiro.

Para piorar, pouco se fala sobre o tema – gays E maconha – a não ser de forma anedótica ou estereotipada (para ambos os lados).

Homofobia e machismo na cultura canábica

Nas copas e eventos canábicos que já participei, se vi algum gay participando, era muito provável que se policiava para não incomodar os colegas héteros.

Não por acaso, a publicidade nas revistas e lojas do ramo é sempre voltada à sexualização da mulher, seguindo os péssimos moldes das propagandas de cerveja.

Vale citar, ainda, alguns casos de homofobia envolvendo expoentes da música maconheira, como o Cone Crew Diretoria e o próprio Snoop Dogg.

O fato é que não existe aceitação na sociedade civil – e tampouco na sociedade canábica – para um espaço que seja ao mesmo tempo antiproibicionista e livre de homofobia.

Para todo lado a condição homossexual é usada como insulto e deboche e são raras as manifestações de gays, lésbicas, bis, travestis e transexuais nos espaços oficiais de discussão e convivência de maconheiros.

Nos portais, sites, páginas e blogs sobre maconha do Brasil é clara a ausência da discussão sobre as pautas LGBT, como se não existissem lésbicas e gays maconheiros – ou como se a repressão que sofrem não importasse para a cultura canábica.

Sobre isso, uma matéria do Latin Times resume bem a situação: atualmente são dois movimentos separados. Existem pessoas do movimento LGBT na Marcha da Maconha, sim; mas os organizadores e participantes da Marcha da Maconha raramente se fazem presentes na Parada do Orgulho LGBT.

Uma mesma luta

Quem confirma esse panorama é a ativista Danielle Bontempo. Lésbica, anti-proibicionista e engajada nas causas LGBT, ela relata ter sofrido muito com o machismo e a homofobia em algumas edições da Marcha da Maconha de Brasília, da qual foi fundadora.

Ela relembra que a Marcha da Maconha na capital federal nasceu do ventre de um coletivo lésbico e feminista, o Coturno de Vênus.

Na visão de Danielle, as lutas LGBT e antiproibicionista têm em comum os mesmos inimigos (a legislação conservadora, o moralismo reacionário e o discurso religioso) e reivindicam a mesma coisa: o direito à autonomia dos corpos.

Mesmo assim, as marcas da misoginia e da discriminação que sofreu por sua orientação sexual dentro do movimento antiproibicionista fizeram sua participação no ativismo canábico se retrair. “Ter que enfrentar machismo e homofobia todo santo ano na organização da Marcha cansa. Não tenho mais essa energia”, confessa.

Dito tudo isso, vale perguntar mais uma vez: a comunidade canábica tem espaço para os gays?

Se heterossexuais que fumam maconha encontram na comunidade canábica um refúgio contra as repressões que sofrem no mundo proibicionista, por que razão os homossexuais também não podem usufruir do mesmo grupo que os respeitem?

A palavra-chave aqui é empatia, que significa colocar-se no lugar do outro; sentir as emoções vividas pelo próximo. Falta empatia para os líderes e os integrantes do movimento antiproibicionista brasileiro em relação às pautas do ativismo LGBT.

Não é por acaso que países progressistas, a exemplo do Uruguai, legalizam tanto a maconha quanto o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Isso é a comprovação de que, em termos de liberdade e autonomia dos corpos, não existem avanços feitos pela metade: o direito de ser feliz é universal e a democracia nunca será verdadeira enquanto for negada a um grupo.

*Por Jonas França Leal, ativista e estudante de Ciência Política da Universidade de Brasília

**Foto: David McNew/Getty Images