CONTEÚDO JORNALISTÍCO PARA MAIORES DE 18 ANOS
Home > NEGÓCIOS > Estratégias da Netflix refletem as tendências do marketing canábico no mundo

Estratégias da Netflix refletem as tendências do marketing canábico no mundo


A Netflix, maior sucesso até agora na produção e distribuição de audiovisual pela Internet, lançou no verão americano de 2017 a série “Disjointed”, cuja história se passa no dispensário “Medicina Alternativa da Ruth”, pertencente a uma advogada-ativista que virou empresária no mercado bilionário da cannabis no Colorado, EUA.

(Alerta para o risco de spoilers)

O dispensário é co-administrado pelo filho de Ruth, recém-formado com MBA. Os personagens principais são o segurança “Carter”, o cultivador “Peter”, duas budtenders, os típicos clientes antigos que deixaram de comprar do mercado ilegal, uma cliente recém-iniciada que representa a típica mulher-mãe-esposa que busca alternativa aos antidepressivos e ansiolíticos, além de um vizinho lutador de artes-marciais que representa a figura do preconceito proibicionista.

A vinheta é sensacional, com cenas extraídas do filme Reefer Madness de uma festa regada à drogas, especialmente maconha, onde as pessoas se divertem como se não houvesse amanhã. Risos. Muitos risos. Vários temas importantes deixam de ser devidamente tratados, apesar de que o drama dos militares americanos que sofrem de PTSD (síndrome de estresse pós-traumático) é abordado pelo segurança Carter.

A série conta com a ousadia artística de desenhos e outras imagens de viagens cerebrais durante os curtos episódios com menos de 30 minutos.

O consumo de maconha nas cenas é usual e constante, com a apresentação de várias formas modernas de se ingerir ou inalar as diferentes espécies de maconha, com vape pens, comestíveis, cosméticos, bongs, etc.

Publicidade na era das redes sociais: o caso da maconha da Netflix

O merchandising da série usa e abusa dos estereótipos do universo canábico, mostrando caminhos alternativos para a produção de peças de marketing focadas na intersecção de públicos de produtos complementares.

A série oferece vários exemplos de soluções para inserir a publicidade nas suas produções, com o objetivo de evitar a dispersão da atenção de seu público.

A marca de batatas fritas Lays, que não patrocinou diretamente uma dessas campanhas, mostra como a Netflix vem usando a tecnologia para se tornar um veículo de comunicação em que o merchandising de suas produções estabelece uma conexão mais profunda entre bens de consumo e a sua audiência.

Para divulgar a série, a Netflix abriu uma loja pop-up sem fins lucrativos para vender dez variedades de flores secas de espécies divulgadas na própria série ”Disjointed”; entre elas, Omega Strain e Eve’s Bush.

A loja, em Santa Monica, Los Angeles, oferece outros produtos com imagens e referências à série e à maconha tais como, camisetas e bonés. Outras espécies no menu incluíam algumas inspiradas em outras séries da Netflix, que claramente se aproveita da maconha para divulgar suas produções. Cada espécie vendida é apresentada pelas suas propriedades sensoriais, funcionais no humor e espiritualidade, além de ser “inspirada” para harmonizar com diferentes séries produzidas pela Netflix.

A série também mostra o poder do merchandising para distribuir produtos cuja publicidade é proibida, desafiando até políticas do Google e Facebook. O audiovisual na internet se mostra o espaço livre em que os direitos individuais prevalecem.

O mercado da maconha e a Netflix estão fazendo isso sem nenhum pudor antes que as Agências de Censura comecem a se manifestar.

O humor como linguagem para lidar com estereótipos

Outra lição da série é encarar de frente aqueles estereótipos mais controversos através da comédia e sátira como caminho para realizar marketing subversivo de produtos polêmicos.

Talvez o sucesso da propaganda proibicionista que criou esses estereótipos seja tão grande, que a melhor forma de se comunicar e aparecer para seus consumidores seja escancarando as visões e imagens que os próprios usuários têm sobre a maconha e sobre si mesmos.

Ou será que essa forma de  marketing tragicômico é parte do processo de amadurecimento da indústria que, ao se expandir e se tornar mais abrangente, passará a se comunicar com distintos perfis de usuários de cannabis, através de um discurso mais sério e maduro, com posturas e linguagem que promovam hábitos de consumo mais saudáveis e higiênicos?

*Por Samy Abud Yoshima, administrador e empreendedor do mercado canábico