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Precisamos falar sobre o machismo na cena canábica brasileira


Na data dedicada à comemoração do chamado “Dia Internacional das Mulheres”, o Maryjuana propõe uma necessária reflexão – em primeira pessoa – sobre a questão do machismo na cena canábica brasileira.

Meu nome é Mônica Pupo, sou jornalista e editora do Maryjuana. Desde 2012, me dedico em tempo integral à propagação de informações sobre maconha, através deste e de outros canais. Desde 1997, consumo cannabis de forma recreativa e medicinal.

Nestas mais de duas décadas de “maconhismo”, vi e, infelizmente, protagonizei inúmeras e lamentáveis cenas de machismo e misoginia na cena canábica.

Assim como acontece em outras áreas – e em quase todos os contextos da vida – o machismo está entranhado nas mentes de homens e mulheres, funcionando como uma espécie de “filtro” pelo qual a sociedade julga nossas atitudes, comportamentos e escolhas.

Machismo por todo lado

E é claro que não poderia ser diferente no (ainda) limitado universo canábico brasileiro. Invariavelmente dominado por homens, o ativismo em prol da legalização da maconha pode ser um ambiente hostil para as minas.

Exemplo disso são as lendárias discórdias que acontecem entre grupos feministas e a organização da Marcha da Maconha em alguns estados brasileiros. A treta provocada por misoginia é tanta que muita mina desiste de participar da organização do evento.

No âmbito da cannabis medicinal também não é muito diferente. No último fim de semana, durante evento organizado pela Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Margarete Brito, coordenadora da Apepi, denunciou o machismo em grupos de suporte a pacientes. “É de adoecer o machismo que predomina em alguns destes grupos, o que provoca o afastamento de muitas mulheres”, disse.

Objetos de decoração

O que dizer então dos escassos eventos canábicos que acontecem no Brasil e na América do Sul? Alguns deles mais se parecem com verdadeiros “Clubes do Bolinha”, nos quais as mulheres presentes resumem-se às namoradas/esposas dos convidados ou, então, a meros objetos ambulantes de decoração.

Ao me ver cercada por cerca de 90% macho X  10% minas em algumas destas ocasiões, sobretudo em copas canábicas, algumas perguntas vieram à minha cabeça: será que as mulheres se interessam menos por maconha e eu sou uma exceção à regra? Ou será que sequer são convidadas para tais eventos – e eu sou outra exceção à regra?

Mercado misógino

A misoginia também costuma ser regra no incipiente mercado canábico brasileiro. No ar desde abril de 2012, o Maryjuana já enfrentou as mais diversas críticas por assumir uma imagem e postura essencialmente femininas.

No início, muita gente achou que eu era homem – afinal de contas, como pode uma mulher se atrever a falar e saber mais sobre maconha do que eles?

Recentemente, um macho com discurso de “investidor” me abordou dizendo que o conteúdo do site era excelente, mas que eu precisava deixar de lado o viés feminino se quisesse “prosperar”…

Natália, a.k.a Nah Brisa, é uma das primeiras minas do Brasil a dar a cara para falar sobre maconha no Youtube

Ao conversar com a ativista e youtuber Natália Noffke de Almeida, percebi que a situação é recorrente. À frente do canal Nah Brisa, Natália também sofre na pele com o machismo predominante na cena canábica. “Diariamente vejo macho desacreditando do nosso trampo, do nosso beck, da nossa bongada, das nossas ideias. Todo dia nós temos que provar que, sim, a gente é mulher e gosta/entende de maconha tanto quanto – e até mais! – que eles”, desabafa.

Além dos questionamentos típicos da audiência – predominantemente masculina – ainda é preciso lidar com as dificuldades de sobreviver em um mercado ainda restrito e dominado por machos. Não raro, somos boicotadas por marcas e, até mesmo, pelos próprios ativistas e maconheiros em geral, que muitas vezes têm receio de investir e compartilhar os conteúdos produzidos por mulheres – a não ser, é claro, que esse conteúdo objetifique a mulher e contenha algum teor sensualizante.

Única presença feminina na trupe do canal UmDois, a youtuber Fernanda Nascimento relata que, apesar de tantos casos de misoginia, encontrou no mundo canábico um “repouso de tanto machismo”. “No mundo canábico encontrei esse amor que alivia, não pense que é um mundo perfeito, mas certamente me deu mais abertura pra me questionar e me desafiar enquanto eu dividia e refletia com maconheiros disponíveis às mudanças internas.”

Cala a boca e mostra a bunda 

De todos os canais na Internet, certamente é no Instagram que a misoginia ocorre de forma mais escancarada entre os maconheiros. Basicamente, a coisa funciona da seguinte forma: poste conteúdo de qualidade (sejam fotos de buds, slides informativos ou imagens diversas) e obtenha pouquíssimos likes. Agora, se você é mina (ou explora a imagem das minas), experimente mostrar a bunda enquanto aperta um baseado e receba uma chuva de coraçõezinhos punheteiros desesperados.

A objetificação feminina é reforçada na publicidade de marcas ligadas ao universo canábico, que muitas vezes seguem os passos do mercado de bebidas alcoolicas, objetificando e hipersexualizando as mulheres. “É muito decepcionante”, segue Nah Brisa, “pois eu particularmente sempre esperei mais, afinal a erva estimula ou não a criatividade? Cadê a criatividade das marcas que insistem em usar bunda para vender seda?”.

No último fim de semana, por exemplo, uma marca de sedas sem presença no mercado provocou revolta entre as maconheiras no Instagram. Após hipersexualizar uma modelo de biquíni para anunciar seu produto, a tal empresa foi criticada por uma seguidora, que qualificou a foto como “tosca”.

Tomando o comentário como uma ofensa pessoal em vez de crítica construtiva, o responsável pela marca – provavelmente algum macho mal resolvido – decidiu invadir o perfil da menina para destilar machismo e misoginia. Ou seja: adivinha o que acontece quando uma mulher decide protestar contra o machismo? Mais machismo!

Além da misoginia descarada, não há justificativa que explique a atitude de uma “empresa” que leva uma crítica para o lado pessoal e decide ofender uma potencial cliente de forma tão baixa e asquerosa.

Como tantas evidências de machismo na cena canábica, quem ainda duvida que falar sobre feminismo é fundamental para a evolução da luta antiprobicionista?

Para continuar refletindo sobre o papel das mulheres na cena canábica, confira o vídeo abaixo, produzido para o Congresso Online sobre Cannabis (CONNABIS) 2017:

*Por Mônica Pupo, jornalista, ativista, empresária e fundadora do Maryjuana

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