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Parisienses fazem fila para comprar maconha legalizada


Cofyshop é uma daquelas lojinhas de “uma porta”, na região central de Paris, a poucos metros da agitada Place de la République. Um enorme segurança organiza a entrada das pessoas no apertado estabelecimento. A fila é grande, mas tranquila, com adultos de todas as idades.

O que eles querem? Maconha. Os consumidores aproveitam a novidade de poder comprar a erva legalmente, com comprovante de caixa. A novidade está fazendo sucesso e duas vezes em uma semana o estoque esgotou e a loja teve de fechar mais cedo.

O conceito é diferente dos tradicionais coffee shops holandeses, estabelecimentos onde a venda e consumo de maconha são legalizados. Na França, fumar maconha em público ainda é proibido.

Erva light

O destaque das lojas francesas vai para a chamada “maconha light”, composta basicamente de CBD (canabidiol), molécula de cânabis que a literatura científica diz ter efeitos analgésicos e relaxantes, e com pouquíssimo teor de THC (tetraidrocanabinol), que é responsável pelos efeitos psicotrópicos da planta, ou seja, o barato.

Uma brecha na lei francesa permite, desde novembro, que derivados da planta sejam comercializados, respeitando um teor máximo de THC de 0,2%. Os produtos também não podem dizer que promovem benefícios médicos.

Empresários antenados, como Joaquim Lousquy, 29 anos, dono do Cofyshop, aproveitaram a abertura para investir no setor. “Eu gosto de buscar novidades, em setores diferentes”, diz o empreendedor, que também já deu o que falar na cidade ao inaugurar um primeiro prostíbulo com bonecas de silicone, para ira de moralistas e feministas.

Não é a primeira loja de derivados de maconha em Paris ou na França, mas Lousquy explica que o sucesso é resultado de um projeto bem elaborado. “Pensamos na marca, nas cores, no logo, no conceito”, diz. “Também divulgamos na imprensa, mas o nosso diferencial é que o cliente pode ver, cheirar e comparar os produtos”. O jovem empresário não esconde a ambição: “Já recebemos cerca de 300 pedidos de franquia e pelo menos cem são projetos sérios. Logo a marca vai estar em toda a França”.

A oferta muda todo dia. Nesta quarta-feira (13), por exemplo, a escolha de ervas era entre “Swiss Cheese” e “Black Domina”. O grama custa uma média de € 13. Outros produtos derivados de maconha vendidos na loja são xaropes, biscoitos, balas e óleos.

Curiosidade

Na fila, um homem que se identificou como “X”, diz que veio por curiosidade, “para experimentar a erva à base de CBD, já que o nível de THC no produto é ridículo”. Para ele, a venda legal de cânabis, “segue o bom senso, ao contrário do que acontece com o álcool, que é bem mais nocivo e mais tolerado”.  Ele lembra que há muitos estudos que falam dos benefícios da droga para tratar doenças como câncer e epilepsia de maneira natural. “Isso há muito tempo”, acrescenta.

“Sou consumidor de maconha, que é ilegal na França, então esta loja é uma solução, digamos, legal”, diz Hubert, 33 anos, empresário. O colega Hafik, 35 anos, fala que existe muita hipocrisia a respeito do uso da erva. “Finalmente vamos poder consumir o produto abertamente, vamos ver como isso vai se desenvolver”.

Dominique e Jean são um casal de aposentados na faixa de 70 anos. “Viemos por curiosidade, parece que a substância tem um lado terapêutico e é leve. É a primeira vez que vamos fumar maconha, nem em 1968 fizemos isso”, explica Dominique, rindo.

Marc, cigarro no canto da boca, é o único da fila que se deixa filmar e fotografar. Ele mostra a palma das mãos, tomadas por feridas secas. “Eu tinha uma feridinha de nada, o médico me passou uma pomada e virou psoríase. Isso há três anos. O médico diz que estou exagerando, mas quero experimentar o creme à base de cânhamo”.

Programa de desenvolvimento

A liberação do CBD faz parte de um projeto do governo Macron para redinamizar a Creuse, no centro do país, uma das regiões mais desfavorecidas da França. O objetivo é estimular no departamento a cultura e a transformação da maconha para fins terapêuticos. Vários países europeus, como Espanha, Suíça e Grécia já autorizam a venda desse tipo de cânabis.

*Fonte: RFI

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