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Dia das Mãeconheiras: As Marias proibidas

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Neste Dia das Mãeconheiras, a escritora Maíra Castanheiro – autora do livro “Diário de uma Mãeconheira” – propõe uma reflexão sem hipocrisias sobre maternidade e uso de drogas. 

Numa comunidade indígena do Acre, Maria cresceu sob o céu que nos protege. Nunca lhe faltou sol sal suor saliva. Nesta comunidade, os indígenas comungam a Ayahuasca e a Maconha. São medicinas. São curativas. São consagradas. Maria cresceu conhecendo e consagrando a Ayahuasca e a Maconha.

Um dia, Maria se casou com um homem mais velho, branco, juiz. Tiveram uma filha e se separaram. Ela, temendo perder a guarda da filha, deixou de consagrar a Ayahuasca e a Maconha. Atualmente vive numa cidade longe de sua família, de sua comunidade, de suas curas, de sua história, de sua cultura, de si. 

Maria faz mestrado e sua filha é autista que só foi diagnóstica adulta. Foram anos de diagnósticos equivocados, tratamentos e remédios errados. Sua filha tem muitas crises. São apenas elas duas numa ilha. Tem gente na comunidade de Maria, lá no Acre, amigos e parentes, morrendo de covid-19. Maria não dá conta do ritmo acadêmico. Maria tá cansada exausta e toma remédios antidepressivos, pra ansiedade e pra dormir. 

Hoje, Maria conseguiu que sua filha tenha atendimento específicos e tratamentos com óleos de CBD através de uma associação. Sua filha está reagindo muito bem ao tratamento. 

Numa pequena cidade do interior de Minas, vive uma outra Maria. Ela estava desempregada, em plena pandemia com três filhos. Começou a revender produtos cosméticos, dermatológicos, medicinais à base de CBD. 

Um dia, seus filhos estavam com os lábios levemente feridos, e Maria aplicou o protetor labial a base de CBD em seus filhos. Ela estava na porta de sua casa, tomando sol, cuidando de si e de seus filhos. Mas, parece que mais alguém, o vizinho talvez, estava cuidando da vida de Maria, pois ao ver a cena de Maria aplicando o protetor labial nos filhos, achou um absurdo e fez uma denúncia no conselho tutelar. 

Já era noite, Maria estava bem de boas, jantando com seus filhos quando escuta alguém bater a porta. Era a polícia. Entram sem pedir licença. As crianças se assustam. Os policiais armados apreendem todos os seus produtos e diz que ela está sendo acusada de dar maconha aos filhos. Começou a treta. Maria, sem seus produtos pra vender, desesperada com medo de perder a guarda dos filhos, está vivendo diariamente seu pior pesadelo. A empresa para qual Maria revende os produtos está lhe apoiando com advogados e uma ajuda mensal de sobrevivência. No meio deste processo, Maria obteve o diagnóstico que seu filho de 7 anos é autista cujo o tratamento com CBD têm se provado eficaz. 

Na grande São Paulo, há também uma Maria. Ela é mãe de dois e está grávida do terceiro. Maria estuda, trabalha, tem uma vida saudável e normal. Feliz com seu companheiro e com sua gravidez. Porém, sua primeira filha é de outro casamento. Maria nunca pôde fumar maconha na presença de sua filha, pois teme perder a guarda. Sua filha não sabe que a mãe fuma maconha. 

Em Florianópolis há uma Maíra, esta que vos escreve trazendo algumas histórias de mãeconheiras. Esta Maíra vai passar o dia das mães sem a filha. Esta Maíra luta pela guarda da filha na justiça. Cujo o pai da filha anexou no processo prints dos textos do “Diário de uma Mãeconheira” que escrevo desde 2015. E que desde então implica também na minha profissão: professora. Muitas escolas já me fecharam as portas. Estou há dois anos neste processo para regularizar a guarda. 

Hoje, trouxe outras histórias que venho conhecendo desde que joguei na rede meu livro: “Diário de uma Mãeconheira”. Será publicado brevemente pela editora Moluscomix. São 224 páginas verdeverdade, uma seleção de textos de 2015 a 2020.

Jogar este livro na rede foi abrir caminhos e debates. 

Ao contar minha história, outras mãeconheiras chegam para contar as suas. Nos sentimos ouvidas. Nos sentimos Juntas. E não nos sentimos sós. Nos sentimos sol. 

Contar nossa história e romper nosso silêncio é um ato político revolucionário porque quando falamos, nos escutamos, nos aproximamos e nos curamos. Percebemos o quanto as questões históricas e sociais implicam em nossas escolhas individuais.

Nestas histórias que trouxe, todas levam o nome de Maria. São histórias baseadas em fato reais. Pra preservá-las eu nomeei todas de Maria. Algumas cidades e informações estão trocadas, mudadas, inventadas, nada relevante. “Ficção é a vida melhorada”, já dizia o velho Bukowisk. 

Todas Marias são mãeconheiras. Trabalhadoras e criadoras. Criar no sentido de gerar criar criança criar criações. São mulheres e mães que conhecem a dor do parto e não tem medo do amor. Que conhecem a dor e a delícia que é ser cacto no deserto que é a mã-eternidade. São fortes, porém, exaustas, cansadas, magoadas. 

Essas Marias estão sendo proibidas. Tal como a Maryjuana. Quem tem medo da Maria que traga a Maryjuana? Quem tem medo do poder das fêmeas? 

A maconha faz muito bem pra filha da Maria, que é autista. A maconha faz muito bem pra Maria, que cresceu tendo uma relação de cura com planta. Agora ela toma remédios. 

A maconha seguiria sendo uma fonte de renda para Maria, que em plena pandemia, conseguia ficar com seus filhos e vender produtos de qualidades e eficazes: naturais, veganos e à base de CBD.

Mas, estas Marias são mãeconheiras clandestinas sem querer querendo. E são muitas mãeconheiras: de várias idades, lugares, contextos, que de uma forma ou de outra tem sua maternidade limitada e/ou ameaçada pelo fato de elas serem mãeconheiras. Pouco se fala sobre maternidade e maconha, maternidade e drogas.

Sobre mães que usam drogas e são de “boas”. Há muitas mães que usam drogas de forma saudável, consciente. Nem toda mãe/pessoa que usa droga é viciada, depressiva, violenta, improdutiva, etc. e tal, como mostram nos filmes, novelas, literatura. 

Nós mãeconheiras usamos drogas e bebemos água. Comemos frutas, raízes e grãos. Nos alongamos e benzemos nosso útero. Alinhamos nossos chakras. Trabalhamos, estudamos, criamos, inventamos. Casamos e nos separamos. E recomeçamos.

E quando a gente chora, quando tudo vai mal, não é porque usamos drogas, nossas bads moram no capitalismo e no patriarcado. Só que a gente acende um beck: a gente inspira respira e não pira.

Tragamos essa cortina de fumaça. Estamos pautando. O debate está apenas começando. As mãeconheiras existem, resistem e estão flore-sendo.  

Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas! 

*Por Maíra Castanheiro é historiadora, escritora e tradutora. Seu primeiro livro, Para Maria Alice (E-book) está à venda por 20 reais no seu site: www.aldeiadosaber.comAinda este mês será publicado seu segundo livro: Diário de uma Mãeconheira, 224 páginas VerdeVerdade pela editora Moluscomix.

**Foto: Raquel Cunha

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