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Prisão de Gilberto Gil por porte de maconha em Florianópolis completa 40 anos


Famosa por suas belas praias e clima (aparentemente) cannabis-friendly, Florianópolis pode até enganar os mais incautos à primeira vista. Mas, apesar da marofa quase onipresente nas praias e pontos turísticos, a capital catarinense não é tão legalizada quanto parece.

Que o diga Gilberto Gil, para quem a “Ilha da Magia” converteu-se em “Ilha da Agonia” há exatos 40 anos, quando passou cerca de duas semanas preso na cidade por porte de dois baseados.

Em julho de 1976, o músico baiano estava de passagem pela capital catarinense para uma apresentação dos Doces Bárbaros, na companhia de Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa – além de todos os outros músicos da banda, incluindo o baterista Francisco Edmundo de Azevedo, o Chiquinho, detido junto com Gil.

Premonição

“Se tivessem dado ouvidos à Maria Bethânia, nada disso teria acontecido”, conta o jornalista Fábio Bianchini que, há dez anos, em parceria com o também jornalista Marcos Espíndola, fez o levantamento completo do caso para uma matéria da extinta revista Bizz. “A cantora não queria incluir Florianópolis no roteiro da turnê dos Doces Bárbaros, tanto por razões práticas, como o fato de que a capital catarinense era incipiente, com seus 163 mil habitantes, quanto pela intuição: alguma coisa dizia a ela que a passagem por Santa Catarina não seria boa”, completa.

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Na época, Gil e Caetano insistiram na ideia, motivados pela amizade com o organizador do show, Beto Stodieck, um famoso jornalista e agitador cultural da cidade.

Despojado e cheio de atitude, Stodieck era tão inovador para a época que conquistou a antipatia de Elói Gonçalves de Azevedo, então delegado da Divisão de Tóxicos. “Elói (morto em 2015) é autor da máxima segundo a qual ‘nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro’ e que até o fim da vida gabou-se da alcunha de ‘terror dos maconheiros'”, diz Espíndola.

A prisão

Disposto a acabar com a festa de Stodieck, Elói e sua equipe seguiram o jornalista e os músicos na noite do dia 6 de julho, enquanto o grupo jantava na tradicionalíssima Festa da Tainha, na Barra da Lagoa.

O atraque viria na manhã seguinte, no dia do tão aguardado show. “Por volta das 6h, bateram na casa de Beto Stodieck. Vasculharam tudo, mas não encontraram nada além de maricas e papéis de seda”, narra Espíndola.

Pouco tempo depois, foi a vez dos policiais baterem à porta do quarto de Gil, a quem Elói considerava o “cabeça” da “operação criminosa”. Durante a revista, encontraram pouco mais de um baseado na carteira do músico, o suficiente para incriminá-lo.

No quarto de Chiquinho, a quantidade de erva era um pouco maior, “avaliada pelo boletim de ocorrência como suficiente para 15 baseados – sendo, ao todo, 750 miligramas”, detalha Bianchini. “Já no quarto de Gal e Bethânia, os homens da lei encontraram um pó branco que consideraram suspeito, mas depois descobriram tratar-se de ‘pó de pemba para proteção espiritual’.”

O show catastrófico

Autuados e conduzidos à Cadeia Pública, Gil e Chiquinho receberam autorização para fazer o tal show no Clube Doze de Agosto.

Tanto pelo motivo da prisão como pelas péssimas condições acústicas do local (o Clube Doze de Agosto), o fato é que a apresentação foi um completo fiasco.

O próprio delegado Elói – que adorava um holofote – e sua equipe se encarregaram de escoltar Gil e Chiquinho ao show e, ao final, de volta à prisão.

Em declarações posteriores ao extinto jornal Estado, Caetano chegou a dizer que “o show em Florianópolis não valeu, não existiu”.

O julgamento histórico

Se hoje a lei de drogas é conservadora no Brasil, imagine em 1976, no auge da ditadura militar. Naquela época, a legislação penal não previa a figura do usuário de maconha. Ou seja: ou a pessoa era enquadrada como traficante e estaria sujeita à prisão, além de multa, ou assumia a condição de viciado.

Convencido pelos advogados, Gil decidiu declarar-se viciado para escapar de uma condenação maior. Assim, no dia seguinte ao catastrófico show, ele se apresentou para a primeira audiência de instrução. “Diante do juiz da primeira Vara Crime da Capital, Ernani Palma Ribeiro, assumiu o vício em maconha”, atesta Bianchini.

“Fumo diariamente, mas não uso outras drogas, porque sou viciado apenas em maconha, que me auxiliava sensivelmente na minha introspecção mística”, declarou Gil.

As imagens a seguir, produzidas pelo cineasta Jom Tob Azulay, que produzia um documentário sobre a turnê dos Doces Bárbaros, ilustram o julgamento:

Presos no manicômio

No dia 15 de julho de 1976, Gil e Chiquinho foram condenados a um ano de prisão, mas o juiz substituiu a pena pela internação em hospital psiquiátrico, mais precisamente no Instituto Psiquiátrico de São José, na região metropolitana de Florianópolis.

“A permanência de Gil e Chiquinho foi de quatro dias, até a transferência para a Clínica Psiquiátrica Botafogo, no Rio de Janeiro, em 20 de julho”, conta Bianchini. A liberação definitiva da internação foi concedida um mês depois, sob a condição de que os músicos não abandonassem o tratamento, que incluía consultas médicas a cada 10 dias.

Durante o período em que ficou preso em Florianópolis, Gil recebeu ficou amigo do juiz que o condenou e recebeu visitas de políticos de autoridades.

“O então prefeito da cidade, Esperidião Amin, levou um cobertor e desagradou os militares por mostrar solidariedade ao aprisionado”, completa Espíndola.

Os sons do cárcere

Os dias em que passou preso em Florianópolis foram suficientes para que Gil fizesse as músicas que você confere na playlist a seguir:

Além de Gaivota, Sandra e Não Chores Mais, os jornalistas confirmam que Gil também compôs a música intitulada Cânhamo, “que nunca foi gravada, mas define o estado de espírito do cantor naquele momento: ‘Toda obscuridade é clara; Pé quente, cabeça fria; saia despreocupado; mas cuidado, porque entre o bem está o mal‘”, recita Bianchini.

Em Sandra, Gil faz uma homenagem às enfermeiras que o atendiam na prisão-hospício, como Maria Aparecida, Maria Sebastiana, Maria de Lurdes, Lair, Clair e Carmensita.

Baseada no clássico de Bob Marley, Não Chores Mais (No woman, no cry) foi inspirada numa interna que sofria com fortes crises depressivas.

Boicote à Floripa

Revoltados com a prisão de Gil e Chiquinho, Gal e Bethânia comentaram aos jornalistas locais da época que não voltariam mais a Florianópolis.

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Muito além dos Doces Bárbaros, outros músicos também aderiram a uma espécie de “boicote” temporário à Ilha.

“Ney Matogrosso e Rita Lee, que inclusive acabou presa também por porte de maconha em 1976, cancelaram os shows que fariam na cidade naquele ano. Roberto Carlos ameaçou fazer o mesmo, além de colocar à disposição de Gil seus advogados”, ressalta Espíndola.

A ação policial desastrosa foi criticada por Otto Lara Resende, que publicou editorial n’O Globo afirmando que “se fossem britânicos, Caetano, Gil, Bethânia e Gal estariam sendo condecorados pelos altos serviços prestados ao povo e à glória de Sua Majestade. Aqui, não; aqui tudo se quer resolver pela força – e tudo – em última análise, acaba sendo caso de polícia. Eu, às vezes, tenho vergonha de ser brasileiro; de ser conivente”.

Em 40 anos, pouca coisa mudou (ou: o “apologista inconsciente”)

É verdade que a lei de drogas no Brasil evoluiu (um pouco) e, hoje, a história de Gil não se repetiria da mesma forma. Mas, ao que tudo indica, o famigerado delegado Elói fez escola em Florianópolis.

Até hoje – quatro décadas após a prisão de Gil – alguns estereótipos e preconceitos continuam mais vivos do que nunca na cidade – apesar da marofa predominante nas praias e pontos turísticos.

Desde a frustrada operação da Polícia Federal na UFSC em 2014 até a apreensão indevida do primeiro lote do Maryjuana Coffee, fica evidente o despreparo da polícia local para lidar com liberdades individuais tão básicas, além de demonstrar desconhecimento até mesmo das atuais leis em vigor – que já extinguiram há tempos os crimes de apologia em casos de livre expressão do pensamento.

Sobre a parte que nos toca, cabe ressaltar o gesto de resistência e orgulho em, assim como Gil, sermos perseguidos e taxados de “apologistas inconscientes” em pleno 2016. Mas não, não somos – nem Gil, nem nós – “inconscientes”. Ao contrário, temos muita consciência dos princípios de liberdade que movem nossa “apologia”.

*Agradecimento especial aos amigos jornalistas Marcos Espíndola e Fábio Bianchini, verdadeiras enciclopédias ambulantes da cultura musical & aleatória de Santa Catarina.