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Confira entrevista com Ubirajara Ramos, autor do livro “Tá Todo o Mundo Enganado”


Cidadão acima de qualquer suspeita, o pernambucano Ubirajara Ramos surpreendeu amigos e familiares quando decidiu lançar um livro sobre maconha. Bacharel em comunicação social e auditor fiscal da Secretaria da Fazenda de Pernambuco, ele é tudo menos o estereótipo de “maconheiro” construído durante anos pelos proibicionistas – ainda bem!

Aliás, Ubirajara sequer era usuário de cannabis, embora nunca tenha escondido sua predileção por outras droguinhas legalizadas, como tabaco e uns bons drinques. ubirajara_ramos

Foi após ler uma matéria na revista Superinteressante, em 2002, que ele despertou sua consciência para os absurdos da proibição de uma planta com aplicações em tantas áreas, da medicina à construção civil. Intrigado e disposto a saber mais sobre o tema, ele se lançou numa jornada de estudos, pesquisas e viagens para locais como Holanda e Alemanha.

O resultado disso tudo pode ser conferido no livro “Tá Todo o Mundo Enganado”, lançado em 2014 pela Editora Babecco. Com 320 páginas, a obra é recheada de informações para quem deseja saber mais sobre cannabis, da origem até o contexto atual, passando pelo que Ubirajara chama de “utopia proibicionista”.

A seguir, confira entrevista com o autor, que fala mais sobre suas relações com a erva, o Polígono da Maconha no nordeste e o panorama da legalização da maconha no Brasil:

Mary: Você é usuário de maconha?

Ubirajara Ramos – Embora tivesse amigos usuários de cannabis desde a adolescência e, depois, também algumas namoradas usuárias, nunca tive interesse na, até então, “Erva do Diabo”! Desde os treze anos, contentavam-me os cigarros tão bem propagados por Hollywood. Assim, minha primeira experiência com a maconha só veio a ocorrer durante minhas pesquisas, sob a orientação de dois marroquinos, em Amsterdã. E comecei com o haxixe! Naturalmente, mesclado com tabaco. Minha sensação foi: aos 57 anos, o melhor cigarro que fumei em toda a minha vida! Alguns dias depois, voltei a fumar na Alemanha. De lá pra cá, fumo esporadicamente com alguns grupos de amigos.

M: Você trabalha como auditor fiscal (algo que não tem nada a ver com cannabis). Como surgiu seu interesse pela maconha?

U. R. – Tendo trabalhado no Polígono da Maconha e tido relacionamento íntimo com namorada usuária; aos poucos a imagem negativa que eu tinha sobre a maconha foi se dissipando. Mas minha curiosidade sobre o assunto começou em agosto de 2002, quando li uma reportagem de Denis Russo Burgierman, na Superinteressante, mostrando a maconha como remédio, matéria prima industrial e, ainda, como responsável pelas grandes navegações. A primeira coisa que me veio à cabeça: isso só pode ser papo de maconheiro! Mas algo me intrigava: e se tudo aquilo fosse verdade… Por que na escola, da alfabetização à universidade, nunca me falaram disso?

M: Há algumas referências ao Polígono da Maconha em seu livro – e você também vive próximo à região. Já chegou a conhecer ou visitar os cultivos locais?

U.R. – Não. Por três bons motivos: 1) os plantios geralmente são em locais de difícil acesso, inclusive em algumas ilhas do Rio São Francisco; 2) o risco que os envolve, gera um imperativo silêncio nas cidades; e 3) além de inúmeros vídeos sobre o Polígono disponíveis no Youtube, recebi um bom acervo com documentação fotográfica.

M: Qual sua opinião sobre a maconha cultivada no Polígono?

Cultivada de forma ilegal e com a Polícia Federal fazendo operações a cada três meses, a produção fica muito longe do ideal… Mas sem sombra de dúvidas, é bem melhor do que a prensada paraguaia, principal beneficiada pelo “sucesso” das caríssimas operações “enxuga gelo” da Polícia Federal!

M: Qual a sua opinião sobre os rumos da legalização da cannabis em nosso país?

U.R – Pelo que tenho percebido, este é o ponto mais polêmico entre usuários, pacientes e ativistas em relação à legalização da cannabis no Brasil. Gerando intrigas e insultos entre pessoas que, em tese, estão do mesmo lado. Acredito que temos de brigar, prioritariamente, pelo direito auto-cultivo – individual e coletivo – para fins recreativo e medicinal. A importação é inviável. Contudo, não serei eu ou você que impediremos os laboratórios de fabricarem seus medicamentos… Até porque, acredito, o futuro da Medicina está na Cannabis! Assim, mais cedo ou mais tarde, eles também estarão aqui. Portanto, é imprescindível que lutemos cada vez mais pelo cultivo caseiro acima de tudo!

M: Quais foram suas maiores dificuldades durante a fase de pesquisa para o livro? Enfrentou alguma barreira no acesso às informações?

U.R. – Ao procurar informações junto à Anvisa ou ao Ministério da Agricultura, ficava num jogo de empurra, não respondiam nada! Finalmente, mandavam que eu me dirigisse à Polícia Federal, por exemplo.

M: Por fim, deixe uma mensagem para os brasileiros que, assim como eu e você, torcem para que a cannabis seja legalizada em breve no país.

R – Aqui, expresso o prazer que foi contatar com o Maryjuana e seu seleto público e gostaria de lembrar: o Uruguai mostrou que é possível. Agora, urge que avancemos. Porque com a legalização da maconha consolidada em grande parte dos Estados Unidos e 75% dos americanos acreditando que ela é inevitável; pelo andar da carruagem, quando eles legalizarem, o mundo inteiro acompanhará!