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É hora de falar sobre proibicionismo e homofobia


Há cerca de um ano surgiram nos Estados Unidos alguns boatos referentes a uma suposta variedade de maconha, referenciada como “deadly homosex strain”, que seria capaz de despertar em seus usuários um desvio da sexualidade.

Não muito tempo depois – e de forma ainda mais ampla – foi espalhado pela internet o mito dos highsexuals, termo que se refere a homens supostamente heterossexuais que afirmam sentir tesão por seus amigos apenas quando fumam maconha.

Fato que a sexualidade humana é fluida e não cabe a ninguém julgar as preferências dos demais, mas é impossível passar despercebida a presença de um discurso homofóbico e discriminatório nessas polêmicas recentes.

Preconceito e desinformação

Tratar a homossexualidade como uma condição derivada do uso de substâncias químicas é recusar a verdadeira natureza da sexualidade, pois simplesmente não existe um estudo científico sequer que comprove a atuação de qualquer droga na definição da identidade sexual humana.

A ideia de que o uso de maconha causa uma mudança de orientação sexual é exagerada e surreal, pois o máximo que uma substância psicoativa pode fazer neste sentido é desinibir e libertar um comportamento íntimo já existente, porém reprimido.

O que os componentes psicoativos da maconha, como o THC e o CBN, oferecem é apenas uma condição relaxante em que, caso o usuário tenha dificuldade de exteriorizar vontades, isso pode se tornar mais natural.

Sugerir que a homossexualidade seja consequência do uso de uma substância significa diminuir a legitimidade e o fundamento das diversidades sexuais; um discurso com raízes culturais e consequências políticas muito sérias.

Mitos como os da “homosex strain” e “highsexuals” são nada mais do que tentativas desatualizadas de relacionar (de forma fantasiosa) tabus que a sociedade condena.

Homofobia e proibicionismo sempre de mãos dadas

Para ser direto, a verdade é que em uma realidade livre da homofobia os homens não precisariam imputar na maconha a raiz de suas orientações sexuais.

Também não seríamos obrigados a ler absurdos que sugerem que o consumo de determinada planta torna o indivíduo homossexual, ideia que desrespeita a naturalidade da diversidade e enxerga ela como uma aberração, um desvio.

A guerra às drogas criou no mundo ocidental uma cultura conservadora que autentica e recria a discriminação em todas as suas formas – fomenta o racismo, o machismo e a homofobia.

Liberdades individuais e a necessidade de união

Gays e usuários de maconha são igualmente prejudicados por cenários em que não ocorre uma evolução no debate dos direitos humanos, das garantias civis e das liberdades individuais; ambos os grupos estão na margem da sociedade e dos direitos.

Não é exagero dizer que os gays e canabistas sofrem experiências muito próximas de repressão social e institucional.

Quantos gays e lésbicas não escondem relacionamentos de suas famílias, colegas de trabalho e do ambiente público com medo de ataques e reações desmedidas? Da mesma forma os cultivadores são obrigados a manter em sigilo sua produção e seu consumo.

O mais importante, no mundo e no momento em que vivemos, é desenvolver uma consciência coletiva que reconhece a importância do compartilhamento das lutas civis.

A reivindicação de direitos individuais é inevitável a qualquer democracia amadurecida e, nesta luta, os usuários de maconha têm lugar ao lado da comunidade LGBT.

Em tempos de deputados e senadores religiosos, retrocessos no governo e avanço eleitoral do conservadorismo, a saída é ser nós por nós, como canta o rap da Facção Central.

*Por Jonas França Leal, ativista e estudante de Ciência Política da Universidade de Brasília