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Proibicionismo: a Inquisição nossa de cada dia

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O uso de maconha é uma forma de eucaristia. Assim como os padres utilizam o vinho para se conectar ao divino, rastafaris, xamãs, monges e muitos outros utilizam a cannabis para fazer com que a erva se transubstancie em essência divina. Nessas culturas, o consumo da planta sagrada é acompanhado de rituais baseados em virtudes e idéias nobres.

Não é difícil perceber por que existem pouquíssimas referências à cannabis na literatura medieval. Enquanto a maconha foi demonizada, o vinho foi visto como sacramento. Durante o período obscuro da Inquisição, o poder da Igreja estava em alta. O clero julgava os “hereges” em tribunais e os condenavam à fogueira apenas por utilizarem plantas com princípios psicoativos para tratar as pessoas. Plantas alucinógenas eram utilizadas pelas curandeiras medievais, que receberam a alcunha de bruxas.

Ignorância que mata

Houve um tempo em que a ignorância do homem ateou fogo em pessoas vivas. Em pleno século XXI, uma escravidão mental chamada preconceito continua queimando remédios. Toneladas de medicamento antimicrobiano, relaxante muscular, antiespasmódico, antinauseante, apaziguador de dores do corpo e da alma, são condenados à fogueira, assim como foi Joana D’arc no século XV. Por ser visionária, a jovem francesa foi queimada viva sob a acusação de utilizar cannabis e ouvir vozes. Mais de cinco séculos depois de sua morte, é triste concluir que toda a cannabis apreendida no Brasil está sendo incinerada em fornos, enquanto poderia estar curando as pessoas.

A Inquisição proibiu o consumo de cannabis na Espanha no século XII e na França no século XIII; as pessoas que utilizassem a planta para se conectarem com a divindade ou como simples remédio seriam rotuladas de feiticeiras e queimariam na fogueira. O clero se sentiu ameaçado por uma planta que permite ao ser humano acessar uma consciência superiora e perceber todas as ideias de maneira mais ampla.

De acordo com De Passquale em sua obra “Farmacognosia della Canape Indiana”, a Igreja medieval declarou guerra contra todos os costumes árabes, como, por exemplo, o hábito de tomar banho e a utilização da maconha.

Alquimia

O monge beneditino, médico, filósofo e alquimista François Rabelais desafiou a proibição da planta na Europa medieval. Rabelais sofreu duras perseguições da Igreja e desapareceu. Analisando sua obra original, encontramos no livro “Pantagruel” referências à erva escritas de forma esotérica. A cannabis é chamada de “The Herb Pantagruelion”.

O alquimista considerava esta planta divina e misteriosa devido aos ensinamentos pitagóricos ocultos nas folhas, que crescem em distâncias iguais e apresentam uma, três, cinco ou sete pontas, sempre em número ímpar. O autor se refere ao cânhamo como “elemento transcendente”. Nas traduções modernas, as palavra acima citadas foram omitidas por censura do clero.

Que as palavras deixem de ser omitidas e as pessoas deixem de ser perseguidas por suas crenças, em nome de todos os heróis que pagaram com suas vidas o preço para que os homens pudessem ser livres e fazer suas próprias escolhas. Que as pessoas deixem de ser vítimas das interpretações adulteradas que a Idade Média criou e que ecoam até os dias de hoje.

*Por Rodrigo Filho∴, escritor e ativista

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