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Itália investe no cultivo industrial de maconha

Mesmo ainda distante de uma lei que legalize o uso recreativo da maconha, a Itália passou a investir pesado na produção de cannabis.

Depois de ter praticamente abandonado o cultivo da planta nos anos 1960, no início deste ano o país sancionou uma lei que incentiva o plantio para produção industrial.

O governo aposta nas múltiplas facetas da planta como matéria-prima no mercado de transformação para criar empregos e gerar renda. Tanto que, para isso, irá investir por ano até 700 mil euros (cerca de R$ 2,3 milhões) na ampliação das plantações e instalação de estruturas de transformação da cannabis.

“A estimativa é de que essas áreas se ampliem com a nova lei porque as possibilidades de mercado são realmente muito grandes. Mesmo antes desse incentivo, os plantios já vinham crescendo aqui na Itália. Nos últimos três anos, a expansão foi de cerca de 200%. Nosso país tem uma relação histórica com a cannabis e podemos nos transformar no maior produtor”, afirma Lorenzo Bazzana, responsável econômico da Coldiretti (Associação dos Produtores Agrícolas da Itália).

No começo do século passado, a Itália possuía cerca de 100 mil hectares cultivados com maconha. No final dos anos 1930, a península era a segunda maior produtora da planta, atrás somente da Rússia. Nos anos seguintes, porém, a cultura caiu em desgraça devido ao avanço comercial das fibras sintéticas e, sobretudo, à campanha internacional contra o uso de drogas.

Em 2000, chegaram a ser cultivados apenas 500 hectares de maconha. Atualmente, a Itália possui cerca de 3 mil hectares plantados com cannabis e as maiores culturas se concentram no sul – principalmente nas regiões da Puglia, Campânia, Sicília e Sardenha – e no norte, nas regiões do Vêneto e Piemonte. “Finalmente temos uma lei toda nossa. Desde 1997, respondíamos à legislação geral da União Europeia sobre o tema e não havia incentivos nacionais. Agora poderemos sistematizar nossa produção e organizar e ampliar o mercado”, afirma Rachele Invernizzi, representante italiana da EIAH (sigla inglesa para Associação Europeia de Maconha Industrial) e proprietária da South Hemp Tecno, única empresa de transformação da planta em biomassa atualmente em atividade na Itália.

Situada na província de Taranto, região da Puglia, no sul do país, a South Hemp é responsável pela transformação de cerca de 5 mil toneladas/ano da planta em palha e “canapulo” (madeira do caule). Os dois produtos, ricos em celulose e fibras, são utilizados como base para tecidos, papel, plástico, cordões, bio-filtros e artigos para construção civil (como tijolos) e indústria automobilística, e biocompostos para outras plantas.

Além desses setores, a nova lei pretende incentivar a utilização da maconha pelas indústrias de cosméticos, combustíveis e alimentar. “A semente da cannabis é fonte de vitaminas A e E e de ômega 3 e 6. É um alimento nobre. Ela produz uma farinha que pode ser usada para fazer macarrão, pão e vários outros produtos sem glúten. E essa é só a ponta do iceberg porque, se você centrifuga a semente, pode fazer o leite de cannabis, que não contém lactose; se espreme a semente, obtém o óleo, considerado um potente alimento, muito procurado em negócios de produtos naturais”, conta o engenheiro ambiental Marcello Calao, especialista na planta e membro da ABAP (Associação Biólogos Ambientais da Puglia).

Maconha antipoluição

Há dois anos, Calao faz parte de um projeto ligado a outro dos motivos que levou o governo italiano a sancionar a nova lei de incentivo à plantação de maconha: a capacidade da planta de contribuir para a melhoria da qualidade do solo.

Na mesma cidade de Taranto, a ABAP decidiu semear cannabis em um terreno de três hectares contaminado com dioxina, substância altamente tóxica e cancerígena. “Existia já uma pesquisa relacionada à capacidade da cannabis de limpar terrenos contaminados com metais pesados e Césio. Sendo composta a quase 70% de celulose, essa planta tem capacidade de fazer uma grande fotossíntese que permite uma enorme absorção de gás carbônico e purificação do solo. Se fala de uma nova fronteira no setor de fitoremédios”, avalia Calao.

Os resultados finais da pesquisa da ABAP ainda não foram divulgados, mas, segundo o engenheiro, a perspectiva é promissora. Para ele, a nova lei é também muito importante porque abre espaço para incentivos a estudos do gênero no país.

Para evitar que a produção seja desviada para fins ilícitos, a nova lei italiana determina ainda que Corpo Florestal e Polícia Judiciária efetuem o controle dos plantios. Os agricultores podem utilizar apenas sementes certificadas pelo governo Europeu e de três tipos de cannabis: sativa, indica e ruderalis. Além disso, o teor de THC (substância psicoativa da planta) não pode superar 0,6% no momento da colheita.

Além do uso industrial, desde o final do ano passado, a produção da planta para uso terapêutico é permitida no país. No entanto, ao contrário da industrial, ela é restrita. Apenas o Exército de Florença possui autorização para o plantio e a venda da erva para as farmácias nacionais.

Cannabis na Europa

De acordo com a EIAH entre os anos 2011 e 2015, a área cultivada com cannabis para fins industriais na União Europeia mais que triplicou, atingindo os 25 mil hectares cultivados de hoje. Os maiores produtores são França e Holanda, com mais da metade da área semeada na UE.

Atualmente, as principais aplicações para a fibra extraída da cannabis são a fabricação de velas para embarcações, sacos, cordas, lonas e tecidos vários.

Também é expressiva a utilização das sementes, flores e folhas no setor alimentar. Em três anos, a produção de sementes para este fim aumentou 92% e a de flores e folhas, 3000%.

Já a utilização da maconha para produção de energia limpa representa 15% da produção total, com cerca de 13 mil toneladas de maconha em pó destinadas a esse fim.

*Fonte: Uol

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